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Não há inocentes no drama do euro

Paul de Grauwe culpa igualmente o Norte da Europa, no Expresso de  8 de Dezembro de 2012

 

Começa a ser sufocante a arrogância com que, reiteradamente, alguns países do Norte da Europa - em especial, Alemanha, Bélgica, Finlândia e Holanda – acusam os países que enfrentam dificuldades mais evidentes com a “dívida soberana” – particularmente a Grécia, mas também Espanha, Itália, Irlanda e Portugal – de todas as culpas pela situação em que se encontram e pelo drama em que se encontra o euro. As respostas às críticas provenientes destes falcões que nos querem fazer esquecer os seus próprios “telhados de vidro”, variam entre extremos que vão do aceitar a expiação de todas as culpas por via do empobrecimento sem limites dos “incumpridores”, até à revolta que leve os “cumpridores” a beber do seu próprio veneno.

 

Porque “o mundo não é feito a preto e branco”, considero da maior utilidade dar relevo à opinião bem sustentada e devidamente ponderada, expressa por Paul de Grauwe, actualmente professor na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, e também investigador no Center for European Policy Studies e conselheiro de política económica do presidente da Comissão Europeia, assim sintetizada:

 

Não há países bons e maus neste drama. A responsabilidade é partilhada. O Norte da Europa é igualmente culpado. Queria despejar o máximo de exportações no Sul fornecendo crédito em excesso.

 

Ao longo do esclarecido e esclarecedor texto que subscreve, Paul de Grauwe percorre os pontos cruciais que consubstanciam a sua posição, começando por referir: “Na semana passada, o primeiro-ministro holandês, o senhor Rutte, declarou com grande arrogância que os países que não obedeceram às regras deviam abandonar a zona euro.” Depois de tecer algumas considerações sobre concepções religiosas subjacentes à desejada punição, afirma: “O mais importante obstáculo individual à solução da crise do euro é a atitude moralista dos governos do Norte, em particular os da Holanda, Alemanha, Finlândia e Bélgica. Esta atitude conduz à ideia errada de que neste drama há países bons e países maus. Os maus devem ser castigados e não devem esperar, claro, nenhuma ajuda dos bons.”. Mais adiante, explicita de forma lapidar:

 

“A crise do euro teve origem nas explosões do consumo numa série de países da zona euro (Irlanda, Grécia, Espanha). Estes ‘booms’ de consumo levaram a um grande aumento das importações do resto da Europa.

 

O verso dessa medalha foi que o Norte da Europa, e especialmente a Alemanha e os Países Baixos, acumularam grandes excedentes de exportações. Os alemães e os holandeses ficaram muito contentes por vender os seus produtos e serviços aos pecadores da Europa do Sul.

 

Estas vendas foram financiadas com crédito proveniente da banca alemã e holandesa.

 

À medida que as exportações cresciam de ano para ano, os empréstimos dos bancos do Norte ao Sul dispararam. Até ocorrer o ‘crash’ e alguns países do Sul deixarem de poder pagar as suas dívidas.

 

A reacção dos virtuosos bancos do Norte foi despejar os seus créditos nos sectores públicos dos respectivos países. Estes empréstimos podem hoje ser encontrados nas folhas de balanço do banco central holandês e do Bundesbank (o banco central alemão). São os balanços Target2. Os governos do virtuoso Norte tentam agora com determinação recuperar o seu dinheiro dos pecadores do Sul.

O Sul é culpado porque se endividou sem pensar. O Norte é igualmente culpado porque queria despejar o máximo possível de exportações no Sul fornecendo montantes excessivos de crédito sem se pôr a questão de os países do Sul serem capazes de honrar as dívidas. Assim, o Norte assumiu um grande risco e devia saber que o seu comportamento é tão irresponsável quanto o do Sul. O tom moralista que é popular nos países do Norte está completamente deslocado. Mostra uma incompreensão fundamental das causas da crise do euro. Ou será que estou a interpretar mal e os governos do Norte sabem isto muito bem? Se sabem ainda é pior. Nesse caso, os governos do Norte estão a enganar as suas próprias populações e a incitá-las a mostrar ainda maior hostilidade em relação ao Sul, dificultando ainda mais a solução da crise.".

 

Moral da história: ou há solidariedade ou a paz na Europa acaba-se seis décadas depois de…

Rui Beja

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publicado às 15:42



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