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"Eles", sempre... "Eles"!

Incursão pela crítica fácil e a recusa de responsabilidade no que ao "Nós" cabe assumir

 

Todos os povos têm as suas idiossincrasias. Positivas ou negativas, boas ou más, mas têm. Não há razão para que os portugueses fujam à regra e também não há regra que permita definir quais as boas e as más heranças genéticas que nos caracterizam em particular. Mas uma há que, podendo não ser exclusiva nossa, nos encaixa com perfeição; por tudo e por nada, a propósito e a despropósito, com e sem razão, e apesar de por norma sabermos ser solidários para com os menos favorecidos, para nós há sempre um responsável – “Eles”.

 

“Eles” podem ser os familiares, os amigos, os adversários, os patrões, os colegas, os profissionais de uma qualquer área e, claro, os políticos, sejam os “do tempo da outra senhora“ ou “os do tempo da democracia”, trate-se de um qualquer partido ou do seu mais directo opositor.

 

“Eles” são sempre os responsáveis por aquilo que não corre a nosso gosto, ainda que a razão não nos caiba. “Eles” são os responsáveis por tudo e, se vier ao caso, também por coisa nenhuma. “Nós” somos os bons samaritanos e, obviamente, as vítimas de tudo quanto não vem ao nosso jeito; e que ninguém diga que temos qualquer responsabilidade pelo que nos tenha acontecido, ou esteja a acontecer, e menos ainda qualquer obrigação cívica e moral de ter feito para que acontecesse como achamos que teria sido justo e correcto.

 

Mesmo que no nosso íntimo haja uma voz que nos incomode, lembrando-nos que há culpas que nos cabem e responsabilidades que temos de assumir, logo o “Eu” se sobrepõe como um poço de virtudes e da boca nos sai a palavra mágica – “Eles”. E, no entanto, lá no fundo, sabemos bem que cada vez que tudo empurramos para “Eles”, estamos a passar uma esponja pelo que não fizemos no passado, a escusarmo-nos de fazer o que nos compete no presente e a nem sequer pensar no que nos cabe contribuir para que o futuro, nosso e das gerações vindouras, aconteça melhor.

 

Haverá quem a tudo isto chame, simplesmente, egoísmo. Arrisco-me a dizer que, no nosso caso, se trata acima de tudo de uma limitação atávica que nos condiciona, fruto dos muitos séculos de obscurantismo que, salvo raras e curtas abertas de luz e esperança, nos foram impostos desde que a Inquisição foi instaurada em Portugal nos primórdios do século XVI.

 

Nos dias de hoje, nos tempos difíceis que vivemos, se queremos salvaguardar a democracia instaurada com o 25 de Abril, e se desejamos que se altere o actual estado de crise – financeira, económica, política e anímica – temos de deixar de nos desculpar com “Eles” e temos de dar, cada um de “Nós”, tudo quanto temos ao nosso alcance para virar o presente do avesso e ganhar o direito a um dia-a-dia digno e a um futuro bem mais promissor do que aquele que acontecerá se nos resignarmos a “Eles”.

 

Não é fácil, mas não é impossível. Façamos nós, por “Nós”, porque “Eles” nunca o farão!

Rui Beja

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publicado às 10:05


5 comentários

De Carolina Carreiro a 12.12.2012 às 18:56


Gostei, está bem escrito e corresponde também ao que eu penso. Para mim o problema é o "como".

De Rui Beja a 12.12.2012 às 20:37

O "como", Carolina, só pode quanto a mim ser encontrado dentro de nós; em cada momento de reflexão e em cada atitude perante o mundo que nos rodeia. Porque o "como" tem de resultar forçosamente na alteração da nossa forma de estar e de fazer.

O "como" tem de corresponder a sairmos do nosso cantinho de conforto (como agora é moda chamar-se), de darmos a cara, de lutarmos com as nossas armas por aquilo que é do nosso legítimo interesse, e, quando é esse o caso, de nos juntarmos, conciliarmos, partilharmos e defendermos o interesse comum.

Não tenho dúvidas que concordas com estes princípios. Mas não é fácil pô-los em prática, até porque às vezes também implicam dizer não quando nos seria mais fácil dizer sim. É no passar da teoria à realidade que reside o busílis da questão; mas nisso não sei que te diga, porque eu também tenho o problema do "como". Talvez seja apenas uma questão de usarmos a força de vontade!

De Sara Fonseca Ferreira a 12.12.2012 às 22:55

Também acho que está muito bem escrito e também o meu primeiro pensamento foi o "como?"
Infelizmente, cada vez mais me convenço que isto só se vai alterar com a chegada de mais uma guerra. Cada vez mais gente o diz e só a admissão de tal possibilidade é já o bastante para ajudar a que tal venha a acontecer. No entanto, não cedo à resignação. Estou pronta para fazer o que for preciso para virar isto do avesso, como tu o dizes, Rui. Um abraço.

De Sara Fonseca Ferreira a 13.12.2012 às 01:58

Aqui não se perdeu muito tempo a pensar no "como". Juntaram-se, organizaram-se...e vai disto
http://erbancogueno.blogspot.pt/2012/12/vecinos-de-la-palmilla-convierten-la.html

De Rui Beja a 13.12.2012 às 10:44

Obrigado pelos teus contributos, Sara. Representam bem a vontade de assumir o "Nós" por contraponto ao "Eles" que está enraizado na nossa sociedade.

O caso concreto que referes é um bom exemplo de "como" agir sem esperar que "Eles" o façam por "Nós"; com a mais-valia de não se tratar de um projecto de assistencialismo e caridadezinha como tanto apraz a quem nos (des)governa e que, possivelmente, num caso destes trataria de desmantelar considerando-o como fora da legalidade.

Qualquer coisa assim ao jeito da nossa presidente da Assembleia da República que tratou de "legalizar" o recebimento da sua "pensãozinha caída do céu aos trambolhões" quando para ela nada contribuira financeiramente e tinha idade, saúde e trabalho para muitos e bons anos, e agora tratou de "decretar" que quem (Nuno Santos) diz aberta e civilizadamente o que pensa ser a verdade, numa Comissão de Inquérito decidida pelo órgão de soberania a quem cabe o poder legislativo, se arrisca a, no mínimo, ser por isso mesmo... despedido com justa causa.

Volto ao teu excelente exemplo para acrescentar uma coisa que me parece importante. Trata-de um projecto que arrancou face a uma grave crise já instalada, e o melhor é mesmo que "Nós" não fiquemos à espera do que "Eles" não estão preocupados em fazer acontecer. E isto não se aplica apenas à política; na minha perspectiva, tanto se aplica às grandes causas, como às coisas mais comezinhas do dia-a-dia, que tantas vezes deixamos passar para... não nos incomodarmos porque "Eles", seja lá quem for, é que têm de as resolver.

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