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Sobre o 'Câmara Clara'

A opinião esclarecida de Vasco Graça Moura, no Diário de Notícias de 5 de Dezembro de 2012

 

A política de 'posso, quero e mando' vem sempre acompanhada do empobrecimento económicofinanceiro que interessa aos senhores do poder, e do empobrecimento cultural que lhes serve para (re)instalar o predomínio do obscurantismo sociocultural. Sobre este tema, o fim do programa 'Câmara Clara', dei a minha opinião e transcrevi o comunicado de Paula Moura Pinheiro em http://janeladoslivros.blogs.sapo.pt/10875.html.

É com todo o respeito pelo pelo autor, que admiro pelo indiscutível valor e prestígio intelectual, ainda que possa discordar em alguns aspectos de indole política, que trancrevo o preclaro artigo de opinião da autoria de Vasco Graça Moura relativo à inopinada decisão tomada pela administração da RTP, de pôr fim ao programa 'Câmara Clara':

 

Começo por uma necessária declaração de interesses: nos últimos anos, fui várias vezes convidado por Paula Moura Pinheiro a participar no seu programa Câmara Clara, quer a propósito de obras de que sou autor, quer para conversar sobre vários temas ligados à cultura.

Gostei de lá ter estado e da troca de ideias que essa ida a estúdio me proporcionou de cada vez. Em minha opinião, a responsável pelo programa encontrou uma fórmula perfeitamente adequada a um magazine do tipo daquele que apresentava: actualidade dos assuntos, versatilidade da temática abordada, vivacidade jornalística, registo cordial e atmosfera de um quase intimismo bem doseado "como quem não quer a coisa", diálogos quase sempre interessantes, qualidade visual, boas reportagens e boas sínteses, boa realização.

Livros e música, cinema e bailado, teatro e artes plásticas, exposições, estreias, ocasiões tornadas especiais por alguma razão, de um modo geral tudo o que tem vindo a acontecer em Portugal com alguma importância nas áreas ligadas à cultura tem merecido a atenção da equipa da Câmara Clara e encontrado nesta um espaço de referência, discussão, análise e promoção.

 Entretanto, o programa mais extenso dos domingos à noite na RTP2 era complementado com pequenos módulos diários, o que tornava mais densa a presença dos temas culturais ao longo da semana.

 Na Câmara Clara tem-se vindo a falar despretensiosamente de tudo e mais alguma coisa, num programa destinado a toda a gente, mas sem nivelar as abordagens pelo mais baixo e prestando atenção ao que de mais inovador, ou de mais importante nas matérias consideradas, se ia passando entre nós.

 Paula Moura Pinheiro ganhou uma grande experiência na condução da conversa com os seus convidados, sabendo pô-los à vontade e pontuar inteligente e expressivamente o que eles iam dizendo nas entrevistas que lhes fazia. Como excelente profissional da televisão, também sabe ser comunicativa e partilhar uma natural boa disposição com os telespectadores, ajudando a inculcar nos seus espíritos a ideia de que a cultura não é uma sensaboria execrável e maçadora e pode até ter momentos luminosos num simples magazine de televisão.

 Não faço a mínima ideia sobre se a produção do programa é cara ou barata, embora me pareça que não deve ser cara, dada a relativa exiguidade de meios envolvidos e a ausência total de cachets aos convidados.

 Também não posso socorrer-me de indicadores de audiência, no entanto, mesmo supondo que não sejam equiparáveis aos de qualquer programa em que doutos intervenientes dissertam exaustivamente sobre futebol quase todos os dias, tenho a impressão de que muitos interessados na vida cultural portuguesa faziam questão em vê-lo com regularidade, tomando-o como referência. Isso passou-se com toda a gente com quem me tenho cruzado em andanças culturais.

 Fico a saber agora que desde Junho o programa estava condenado e, sem todavia se saber para já se vai haver qualquer alternativa para ele, não se escapa à impressão de que a cultura é cada vez mais uma espécie em vias de extinção no nosso serviço público televisivo.

O Câmara Clara não supre nem pode suprir as gritantes carências da programação da RTP nas áreas a que se dedicava. Faria muito mais sentido que essa programação fosse mais vasta, diversificada e regular, sendo o magazine uma recapitulação semanal apostada numa divulgação de qualidade das actualidades culturais mais importantes.

Não sendo esse o caso, a Câmara Clara era, ainda assim, uma pedrada no charco: ajudava a lutar contra a tendência fatal das televisões generalistas para a imbecilização colectiva e, como magazine de emissão regular, fez muito mais do que aquilo que poderia esperar-se de um programa com as suas características.

Tem plena razão Paula Moura Pinheiro quando pergunta "que meios, que espaço e que visibilidade reserva o serviço público de televisão à cobertura de uma das áreas nevrálgicas do desenvolvimento do país: a inovação nas artes e nas ideias e a conservação do nosso extenso e precioso património cultural - da literatura à arquitectura".

Citar e subscrever essa preocupação que ela manifesta é a melhor homenagem que lhe podemos fazer.

 

O desenvolvimento cultural está de novo sob grave ameaça no nosso país. Com que fins e por interese de quem?

Rui Beja

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publicado às 16:54



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José Cardoso Pires escreveu, em adenda de Outubro de 1979 ao seu «Dinossauro Excelentíssimo»: "Mas há desmemória e mentira a larvar por entre nós e forças interessadas em desdizer a terrível experiência do passado, transformando-a numa calúnia ou em algo já obscuro e improvável. É por isso e só por isso que retomei o Dinossauro Excelentíssimo e o registo como uma descrição incómoda de qualquer coisa que oxalá se nos vá tornando cada vez mais fabular e delirante." Desafortunadamente, a premunição e os receios de José Cardoso Pires confirmam-se a cada dia que passa. Tendo como génese os valores do socialismo democrático e da social democracia europeia, este Blog tem como objectivo, sem pretensão de ser exaustivo, alertar, com o desejável rigor ético, para teorias e práticas que visem conduzir ao indesejável retrocesso civilizacional da sociedade portuguesa.

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