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Egocentrismo e Arrogância são Maus Conselheiros

Porque não gostei da entrevista de Aníbal Cavaco Silva ao Expresso de 5 de Janeiro de 2013

 

Presunção: Opinião demasiado boa sobre si mesmo

Água benta: Água que o celebrante benze por ocasião dos ofícios

Egocentrismo: Amor exagerado aos próprios valores e interesses a despeito dos de outrem

Arrogância: Acto ou efeito de arrogar(-se), de atribuir a si direito, poder ou privilégio

Maus: Que prejudicam, que causam mal aos outros ou a si próprio

Conselheiros: Que ou quem aconselha; conselho = bom senso, sabedoria, prudência

 

Não gostei. Na qualidade de cidadão português na plena posse das suas capacidades e no pleno uso dos seus direitos, entendo que na entrevista de fundo que deu ao jornal Expresso publicado no passado Sábado, o Presidente da República iludiu o dever de respeito pela inteligência, honorabilidade e memória política dos seus concidadãos.

 

Não gostei porque considero impróprio um Presidente da República, que se quer de todos os portugueses, falar de si próprio, das suas atitudes e das suas “vãs glórias”, como se fosse o melhor de todos nós. Eu sei, todos sabemos, que a presunção lhe está na massa do sangue; quem não se lembra do famoso “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, ou da injuriosa e fútil supremacia do “vamos ajudar a acabar o mandato com dignidade”, dirigida ao então presidente Mário Soares e que nos dias de hoje tem funcionado como autêntico boomerang?

No entanto, para além de não ir bem com a função que actualmente desempenha, a soberba também não é consistente com a fraca opinião positiva (4,2% na sondagem feita para o Expresso entre 7 e 13 de Novembro de 2012) que os portugueses conferem à sua actuação política e, muito menos, com a sua assumida fé católica.

 

Não gostei do estilo pretensioso, ainda que tenha de admitir que água benta cada um toma a que quer. Mas dizer nesta entrevista, e cinjo-me às frases que o jornal escolheu para títulos: “Ninguém chegou a Presidente com a minha experiência”, “Como posso não ter orgulho dos meus governos?” ou, referindo-se ao caso BPN, “Não me incomoda, estou seguro da verdade”!? Não, não gosto, claro que não gosto e obviamente que não bebo dessa água. Exemplifico porquê, muito sinteticamente, tocando apenas três aspectos inequivocamente contraditórios:

      i.     De que serve a experiência, seja do que for, para o exercício como mais alto magistrado da nação, a quem assume na própria entrevista que não gosta da política (nem dos políticos, presume-se)?

     ii.     Quem pode ter orgulho dos seus governos, sem quaisquer reticências, sabendo-se que apesar de terem beneficiado, como nenhum outro, das políticas de estabilização conduzidas em 1983-1984 por Mário Soares/Ernâni Lopes com o apoio do FMI, e dos enormes apoios financeiros provenientes da adesão à então CEE, em 12/6/1985 – 4 meses antes da sua primeira tomada de posse como primeiro-ministro – deixou o Governo, dez anos depois, com o país economicamente anémico (crescimento do PIB de -0,69% em 1993 e de 1,49% em 1994, conforme consta na Pordata)?

    iii.     Alguém acredita que outro alguém com um mínimo de auto-estima, não se sinta incomodado ao ver-se envolvido, mesmo que injustamente mas não deixando de ser reiteradamente questionado por tal, num caso como o do BPN em que por múltiplas e diversas razões aparecem como arguidos vários membros dos seus governos?

 

Não gostei porque toda a entrevista revela egocentrismo e arrogância; os maus conselheiros que têm pautado tantas das intervenções de Cavaco Silva ao longo da sua vida política. Sim, política, porque para ser “Política” era preciso que gostasse de ser “Político”, e não é esse o caso. Para ilustrar esta acepção, socorro-me de uma outra frase que o jornal tomou para título: “Faltam-me algumas qualidades dos políticos. A intriga cansa-me”. Pois bem, a mim, cansam-me a afronta gratuita, a insinuação, a maledicência, a suspeição, a maquinação, a insídia… Numa palavra, cansa-me a hipocrisia!

Além do mais, toda esta componente da entrevista deixa-me mau sabor. Ele são os subentendidos, as “colagens”, as acusações, as omissões… Por exemplo, e falando de omissões, relativamente à questão “A verdade é que gostou de ser ministro das Finanças e que isso marcou a sua vida para sempre”, alude a uns quantos sucessos que assume como pessoais mas não refere o que consta no relatório do Instituto Nacional de Estatística «30 Anos de 25 de Abril. Um Retrato Estatístico» a páginas 87:

“De 1980 a 1982, adoptou-se uma política expansionista em contra-ciclo com a economia internacional [na sequência da crise que sucedeu o segundo choque petrolífero de 1979]. Durante este período, assistiu-se a uma subida na inflação e o crescimento real do produto desacelerou.” (Cavaco Silva foi ministro das Finanças entre 3/1/1980 e 9/1/1981).

 

Não gostei porque as explicações que dá, logo no princípio da entrevista, relativamente à opção de enviar o OE para fiscalização sucessiva do Tribunal Constitucional, assim como no que respeita à mensagem de Ano Novo, à linha económica do Governo, à “troika” e ao debate sobre as funções do Estado, são, no mínimo: egocêntricas, contraditórias e inconclusivas.

Para quê procurar palavras que exprimam o desconforto sentido? No Expresso desse mesmo dia, Fernando Madrinha assinala, no artigo de opinião que intitula «A Armadilha», o essencial das contradições em que, também do meu ponto de vista, Cavaco Silva incorre. Os seguintes extractos do artigo são exemplificativos:

      i.     “Promulgar um diploma e só depois perguntar ao Tribunal Constitucional se determinados artigos desse diploma estão de acordo com a Lei Fundamental é uma opção contraditória nos seus termos e uma aventura de alto risco.”…

     ii.     “Sendo a fiscalização sucessiva uma armadilha com estes perigos, porque decidiu o Presidente meter-se nela ao promulgar o Orçamento, mas enviar três artigos para o Tribunal Constitucional? Na verdade não decidiu: foi a reboque das circunstâncias criadas por terceiros.”…

    iii.     “Compreender-se-ia facilmente esta opção e, bem assim, a reafirmada preocupação com a estabilidade política, se tudo isto não fosse acompanhado de uma mensagem de Ano Novo surpreendente e demolidora, quer do Orçamento quer do rumo traçado pelo Governo.”…

    iv.     “O Presidente tem razão quando diz, supondo que se refere ao Governo, que não basta ter a confiança dos credores e é preciso “recuperar a confiança dos portugueses”. Mas também ele, na mensagem de Ano Novo, revela falta de confiança no Governo. A dúvida que se coloca é, pois, a de saber se estará, de facto, preocupado com a imagem e a perda de força política do Executivo, ou, acima de tudo, com a sua própria perda de popularidade e influência.”

 

Não gostei e não me espanta que tal acontecesse.  O teor da entrevista apenas confirma a opinião formada ao longo das mais de três décadas que decorreram desde que o actual Presidente da República assumiu, em 3 de Janeiro de 1980, funções políticas executivas como ministro das Finanças e do Plano do VI Governo Constitucional .

Rui Beja

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publicado às 22:39


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