Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Empobrecimento

26.11.12

Passos de Hipocrisia

Palavras levadas pelo vento das acções que as contradizem, "custe o que custar"

 

O chefe do Governo de Portugal disse ontem, na Madeira: "...sabemos que quem mais acesso tem à televisão e quem mais vocalmente contesta o que estamos a fazer são aqueles que têm mais". Enfio a carapuça e afirmo: é um dever cívico de quem por via do seu trabalho e do seu grau de conhecimentos tem mais e está mais informado, não se calar perante quem tenta enganar os portugueses; todos os portugueses, os que têm mais e os que têm menos.

Por isso contesto e por isso contestam todos quantos não se acomodam à hipocrisia dos "passos" dados com truques e magias que têm um único objectivo, ideológico e económico-financeiro: emprobecer o país para melhor servir interesses inconfessáveis. Não os interesses dos portugueses que têm mais nem dos que têm menos, mas sim os daqueles, portugueses ou estrangeiros, que têm muitíssimo e dominam tudo o que os rodeia.

Para atingirem os seus fins não há hipocrisia que os envergonhe. Nem mesmo o pudor de assumirem o princípio que fez caminho em tempos que julgávamos ultrapassados: considerar perigosos os mais informados; agora na versão "quem mais acesso tem à televisão". Só faltam mais uns "passos" para que a meta do empobrecimento, da classe média e dos menos pobres de entre os pobres, seja "suavemente" atingida sob o manto do obscurantismo, via censura e repressão.

Por isso, há que lembrar e desmascarar, claramente, a HIPOCRISIA militante, a MENTIRA compulsiva e a CONTRADIÇÂO evidendente, que têm  como fim último o EMPOBRECIMENTO:

  • Sim, é verdade que  a chanceler Merkel que tanto apoiava o «PEC 4» do Governo anterior, e que tão incomodada ficou com o seu "chumbo", anda agora maravilhada com o «Plano de Austeridade» aplicado em overdose pelo actual Governo; indiferente à catástofre social que provoca e negligentemente alheia ao final infeliz a que a política do quanto pior melhor irá conduzir.
  • Sim, é verdade que a austeridade imposta pelo actual Governo em nada tem a ver com o programa eleitoral que apresentou aos portugueses, para uma vez eleito dizer que o memorando assinado com a Troika correspondia ao seu modelo de actuação e, logo de seguida, afirmar que iria mais longe ainda, custasse o que custasse; lavando as mãos das graves consequências daí decorrentes e regozidando-se por assim poder atingir o seu ultra-neoliberal desígnio de eliminar o «estado social» e regressar à política da «caridadezinha».
  • Sim, é verdade que o memorando assinado com a Troika pelo Governo anterior (e pelos partidos que constituem o Governo actual), tem sido pressurosamente executado, e até ultrapassado, de forma cega, surda e muda, contra todas as evidências de desatre anunciado; concretizando uma política de terra queimada facilitadora da pretendida desarticulação ad-hoc de direitos e garantias, constitucionalmente estabelecidos, em especial nos domínios do Serviço Nacional de Saúde, do Ensino Público e da Segurança Social.
  • Sim, é verdade que sob a batuta do "rigoroso e infalível" ministro da Finanças, foram cometidas ao longo de 2012 as maiores «trapalhadas», como também avanços, recuos e erros de previsão jamais vistos no nosso país, e que o OE para 2013 constitui um ataque despudorado à economia nacional e à vida dos portugueses; com a agravante de, consabidamente, não ter qualquer viabilidade de concretização.
  • Sim, é verdade que o burocrata conhecido como «etíopo da Troika», que chefia a missão em nome do FMI, teve a desfaçatez de se pronunciar sobre o ministro das Finanças de Portugal, avaliando-o sob a forma de elogio, como "muito impressionante"; isto não deixando de contestar a subida de impostos, dizendo "o que é útil é aumentar a base fiscal, alargá-la".
  • Sim, é verdade que a Directora-Geral do FMI tem afirmado repetidamente que os coefcientes técnicos e as políticas orçamentais utilizadas pela Troika estão desajustados e provocam recessão económica e socialmente indesejável, mas o certo é que o plano de ajustamento se mantém inalterável; com a rizível, se não fosse dramática, aprovação dos "funcionários" do FMI + União Europeia + Banco Central Europeu que constituem a Troika, e a inconsequente satisfação dos governantes portugueses.
  • Sim, é verdade que o presidente da multinacional alemã Bosch, que viajou com a chaceler alemã e foi recebido pelo Presidente da República, salientou que precisamos de manter  a actual estratégia de flexibilização de horários de trabalho e do pagamento de horas extraordinárias, lembrou que os custos do trabalho no nosso país continuam a ser 25% a 30% dos praticados na Alemanha, afirmou que com a continuidade destas medidas os países da Europa de Leste não são concorrência para Portugal, apontou a redução dos dias de férias como uma boa abordagem e disse que ainda não se esgotaram todas as possibilidades de ganhos de produtividade; indo ao concreto; explicitou que a carga fiscal não pode aumentar, mas cada um pode trabalhar mais!
  • Sim, é verdade que o economista belga Paul De Grauwe, professor da London School of Economics e investigador  no Center for European Policy Studies, disse hoje em Lisboa que "o Governo português pode estar a levar o rumo da austeridade demasiado longe e a puxar a economia portuguesa para uma espiral recessiva", acrescentando "não vai conseguir curar o défice orçamental e reestruturar a dívida pública assim", afirmando que o esgotamento desta via já mostrou várias vezes que pode levar os países em reestruturação para a insolvência, e fazendo referência à linha de acção do Governo ao dizer ao ministro das Finanças: "Vítor Gaspar, não exagere".

Rui Beja

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:39


4 comentários

De josé tavares a 28.11.2012 às 19:17

Não, não são duras estas palavras de Rui Beja.
Duras são, sim, estas formas de vida a que nos sujeitam - a de hoje e a que se anuncia para amanhã.
Vidas que reclamam a nossa indignação e denúncia, porque não haverá meias palavras e entrelinhas que encubram os verdadeiros "objectivos" e "medidas" desta política, os reais "actos" e "interesses" que a movem
No final, (meias) palavras ditas, fica ainda tanto por explicar e mais ainda por justificar entre episódios sucessivos de cortes e sacrifícios ?!

José Tavares

De Rui Beja a 28.11.2012 às 22:22

“Gostaria que assim não fosse, mas tenho de concordar que por mais duras que sejam as palavras que escrevi, ficam sempre muito aquém desta dura realidade que nos está a ser imposta sem qualquer dó e com pretensa caridade.
Obrigado, José Tavares, pelo tão esclarecido e encorajante comentário. Na verdade, constitui-se-me como um bálsamo quando começo a ver sinais de que se está a insinuar na sociedade portuguesa o medo de nos expressarmos livremente.
Temo que, caminhando de mansinho, esteja de regresso a marca indelével da autocensura que se entranha silenciosa mas pesadamente; como dizia o escritor Ferreira de Castro, a propósito do livro A Lã e a Neve: “o pior censor era o que sentia permanentemente sentado a seu lado, não tirando os olhos do que ele escrevia”.
Rui Beja

De Sara Fonseca Ferreira a 28.11.2012 às 22:58

São mesmo passos hipócritas estes que referes.
E que dizer dos passos do presidente? Nesta altura em que mais uma vez as atenções estão viradas para ele, como não lembrarmos-nos dos seus passos desde que também ele foi ministro.

De Rui Beja a 29.11.2012 às 00:34

Os passos do presidente? Pergunta difícil Sara! Sobre o presidente não sei que dizer porque… não existe. Quanto a um antigo primeiro-ministro que agora tem escritório em Belém, tudo quanto tem vindo a público está, finalmente, a repor no seu devido lugar a hiperbólica auréola de competência, eficácia e rigor de que «in illo tempore» se auto-proclamava e em que muitos acreditaram.
Com a vantagem de se ficar a saber quem foi o verdadeiro «pai do monstro». Depois dele terá havido uns «padastros», uns «padrinhos»... mas «pai é pai».Tal como o azeite, a verdade vem sempre ao de cima!
Rui

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


calendário

Novembro 2012

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930

Declaração de Princípios

José Cardoso Pires escreveu, em adenda de Outubro de 1979 ao seu «Dinossauro Excelentíssimo»: "Mas há desmemória e mentira a larvar por entre nós e forças interessadas em desdizer a terrível experiência do passado, transformando-a numa calúnia ou em algo já obscuro e improvável. É por isso e só por isso que retomei o Dinossauro Excelentíssimo e o registo como uma descrição incómoda de qualquer coisa que oxalá se nos vá tornando cada vez mais fabular e delirante." Desafortunadamente, a premunição e os receios de José Cardoso Pires confirmam-se a cada dia que passa. Tendo como génese os valores do socialismo democrático e da social democracia europeia, este Blog tem como objectivo, sem pretensão de ser exaustivo, alertar, com o desejável rigor ético, para teorias e práticas que visem conduzir ao indesejável retrocesso civilizacional da sociedade portuguesa.

Os Meus Livros

2012-05-09 A Edição em Portugal (1970-2010) A Edição em Portugal (1970-2010): Percursos e Perspectivas (APEL - Lisboa, 2012). À Janela dos Livros capa À Janela do Livros: Memória de 30 Anos de Círculo de Leitores (Círculo de Leitores/Temas e Debates - Lisboa, 2011) Risk Management capa do livro Risk Management: Gestão, Relato e Auditoria dos Riscos do Negócio (Áreas Editora - Lisboa, 2004)

Não ao Acordo Ortográfico

APRe! - logotipo