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BASTA!

08.05.13

Pausa Sabática - Crónica com Sabor Amargo

Meio ano de Tu(r)bo d' Escape: reflexões sobre a vida de um projecto fortuito

 

No princípio foi o verbo. Ou seja, a palavra escrita, neste caso sob a forma de Carta Aberta dirigida a amigos aposentados, pensionistas e reformados, que intitulei «Iliteracia Ética: Ignorância e hipocrisia no confisco aos reformados». O forte retorno que me chegou no sentido de alargar a difusão desse documento e o gosto por me informar e discutir sobre temas de actualidade sociopolítica, acresceram, ao incentivo que por essa razão já me fora lançado no sentido de criar um Blog neste âmbito, a vontade de assumir o desafio. Assim nasceu, faz hoje seis meses e com o objectivo constante na respectiva Declaração de Princípios, o «Tu(r)bo d' Escape».

 

Embora já então muito crítico da concepção neoliberal e superlativamente austera como o Governo ia actuando face ao memorando assinado com a troika, e extremamente céptico em relação aos resultados a que uma tal política conduziria, estava longe de pensar que, no curto espaço de tempo que entretanto decorreu, a situação política e socioeconómica do nosso país se degradaria da forma tão incompetentemente provocada que a fez chegar ao estado de calamidade em que o país se encontra.

Também ao nível europeu, a realidade excedeu as minhas piores – e já de si muito baixas – expectativas de que existissem as indispensáveis condições, de vontade e de capacidade, para enfrentar com coesão e solidariedade a crise financeira “importada” em 2008 dos Estados Unidos da América.

De tudo isto resultou que, neste meio ano, o «Tu(r)bo d’ Escape ganhasse uma dinâmica bastante superior ao que inicialmente imaginara, somando já 70 posts, entre textos originais e transcrições comentadas (incluindo cinco interessantíssimas cartas do meu amigo Zé versando «O Chico da Terrugem - Reflexões políticas com sabor a Alentejo). Razão mais do que suficiente para recapitular o que de mais relevante foi escrito, reflectir sobre o que foi produzido e ponderar o que deverá ser o futuro próximo.

 

Estou convicto que os temas abordados - seguindo a linha traçada de “alertar, com o desejável rigor ético, para teorias e práticas que visem conduzir ao indesejável retrocesso civilizacional da sociedade portuguesa» e «tendo como génese os valores do socialismo democrático e da social-democracia europeia” -, reflectem o essencial do meu pensamento sobre o que está a ocorrer e sobre o que se perspectiva para o futuro do nosso país e da Europa. Resumindo:

 

- Denúncia do ataque despudorado e do iníquo jogo de falaciosa contraposição de interesses entre grupos   sociais, incidindo em especial nos reformados, funcionários públicos e desempregados, com grave prejuízo dos visados, da coesão nacional e da solidariedade intergeracional.

- Rejeição da austeridade excessiva, injusta, descontrolada e desacompanhada de medidas que visem a sustentação da economia e do emprego, visivelmente personificada na acção de Passos Coelho e Vítor Gaspar e obscuramente influenciada por António Borges; atacar despudoradamente os mais velhos, condenar inexoravelmente a geração activa à precaridade e à desesperança, deixar os jovens sem expectativas de futuro, e a todos retirar os princípios fundadores do Estado Social, não é admissíel nem suportável.

- Crítica das práticas sociopolíticas consubstanciadas na estratégia de empobrecimento da classe média, de emigração dos mais jovens e qualificados, de desemprego a todos os níveis com predominância nos que procuram primeiro emprego, em suma, de instalação de uma espiral recessiva sem precedentes e sem limites e de uma inadmissível desprotecção social dos mais vulneráveis; impor medidas inconsequentes, à margem do memorando assinado com a troika e ao arrepio do programa de acção sufragado nas eleições legislativas de 2011, configura perca de legitimidade política do poder executivo e conivência presidencial com o irregular funcionamento das instituições.

- Alerta para os perigos de os portugueses serem governados seguindo o mito de que somos “povo de brandos costumes”, como resulta dos sinais de regresso aos estigmas da segregação social, do assistencialismo, e do autoritarismo.

- Recusa da culpabilização "calvinista" dos países do sul da Europa como "sementes do mal", e da aclamação "apologética" dos países do norte como "fontes da virtude"; as nossas responsabilidades de rigor orçamental, cumprimento das obrigações incorridas, e correcção dos erros cometidos, têm de ser assumidas com tempo e meios conformes com os princípios de coesão e solidariedade estatuídos nos tratados europeus", não com a brutalidade cega de uma qualquer "expiação punitiva".

- Ênfase para as responsabilidades da Alemanha na grave crise que se vive na Europa, e  para o recrudescimento da histórica arrogância germânica, com realce para o facto de a prática política e discursiva dos governantes alemães estar a contribuir para episódios de grave instabilidade europeia que fazem despertar os fantasmas de nacionalismos exacerbados; não esquecendo que os algozes da nossa "purificação" virão a ser também vítimas do inapropriado uso, e abuso, da "lei do mais forte".

- Defesa intransigente de um adequado “bater o pé” às instituições  - Comissão Europeia, BCE, FMI - que nos pretendem asfixiar ao sabor dos interesses dos "mercados" e do que entende a “patroa Merkel”; com evidência clara das incongruências entre o discurso que fazem os seus responsáveis (Durão Barroso, Mario Draghi, Christine Lagarde) e as práticas que impõem aos respectivos técnicos que nos "policiam" regularmente.

- Apelo para que não nos deixemos cair na vulgar tentação de sempre responsabilizar os outros – o “eles” - não actuando conformemente ao que a cada um e a todos – o “nós”- compete fazer; como também para que usemos sem reservas o direito à indignação sem que se entre no populismo demagógico de declarar a incompetência geral dos políticos esquecendo que há competentes e incompetentes em todas as profissões.

 

Chegado a este ponto e olhando para o futuro próximo, tudo indica que, com uma ou outra nuance, os principais temas se manterão nos próximos tempos e as posturas apenas irão variar por conveniências de circunstância. Estamos mal, vamos de mal a pior, e já deixámos de ter o futuro nas nossas mãos. Dependemos da Europa e da força que ainda nos reste para, acompanhados de outros países em situação idêntica, forçarmos a mudança de rumo na União Europeia, dizermos BASTA!

 

Por tudo isto, e para que não me repita no essencial dos conceitos que defendo, ou que até me possa exceder verbalmente face à insensata arrogância das pretensas elites socioeconómicas e dos misóginos responsáveis políticos que nos "comandam", decidi fazer uma “pausa sabática”. Não digo que o Tu(r)bo d’ Escape pára aqui, porque “nunca se pode dizer nunca”. Mas, por agora, e salvo algum apontamento muito especial que justifique interromper brevemente a atenção que vou dispensar a outros temas que “dormitam na gaveta", fico por aqui. E fico bem.

Fico com a consciência de quem deu a cara pelo que pensa. Fico com a expectativa de que um dia, quando os tempos forem outros e os factos de hoje passarem à história de amanhã, os meus filhos e as minhas netas não vivam o futuro negro que agora paira no horizonte e compreendam as razões deste… Tu(r)bo d’ Escape.

 

Rui Beja

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publicado às 00:00


1 comentário

De Sara Ferreira a 10.05.2013 às 00:09

Espero que a pausa seja breve porque fazem falta os teus alertas. Obrigada, Rui.

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José Cardoso Pires escreveu, em adenda de Outubro de 1979 ao seu «Dinossauro Excelentíssimo»: "Mas há desmemória e mentira a larvar por entre nós e forças interessadas em desdizer a terrível experiência do passado, transformando-a numa calúnia ou em algo já obscuro e improvável. É por isso e só por isso que retomei o Dinossauro Excelentíssimo e o registo como uma descrição incómoda de qualquer coisa que oxalá se nos vá tornando cada vez mais fabular e delirante." Desafortunadamente, a premunição e os receios de José Cardoso Pires confirmam-se a cada dia que passa. Tendo como génese os valores do socialismo democrático e da social democracia europeia, este Blog tem como objectivo, sem pretensão de ser exaustivo, alertar, com o desejável rigor ético, para teorias e práticas que visem conduzir ao indesejável retrocesso civilizacional da sociedade portuguesa.

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