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A deriva populista

José Manuel Pureza alerta para a perigosa inconsequência do voto de protesto em movimentos populistas de vocação contestatária e sem programas sustentados e credíveis de exercício responsável do poder democrático, no Diário de Notícias de 1 de Março de 2013

 

 Dizia há dias Ricardo Araújo Pereira, numa interessantíssima conversa com Pedro Mexia no Encontro Nacional da Associação de Professores de Filosofia, que não é a votação num palhaço que mostra a crise da democracia, porque há palhaços com excelentes ideias e engenheiros ou advogados sem ideia nenhuma. O problema não é a profissão, é o programa. Ou a falta dele.

As eleições em Itália mostraram à saciedade como Ricardo Araújo Pereira tem razão. Mal ou bem. A esmagadora maioria dos italianos viu nos boletins de voto uma escolha simples: ou a política europeia de austeridade, em versão mais branda ou mais bruta, ou a humilhação do sistema político fazendo dele bode expiatório de uma sociedade indignada.

 Não vale a pena perder um minuto que seja a tentar perceber se essa humilhação era justa ou não. Porque não é de justiça que se trata, mas sim de juízo de utilidade por parte dos eleitores. Um centro-esquerda de gelatina que de esquerda tem o nome e nada mais, uma direita de um citizen kane pimba atolado em binga-bungas de escândalos e um consultor da Goldman Sachs, querido de Berlim e de Bruxelas e feitor interno da austeridade punitiva ditada por quem manda na quinta europeia, não deram aos italianos o ensejo de dizerem "não". Disseram-no através do populismo.

Convém aqui dizer que um voto de protesto é tão vital para a democracia como um voto de programa. Isto dito, o protesto expresso nos 25% de Beppe Grillo é um recado forte com um fundamento fraco. Recado forte porque põe a ridículo toda a elite política do sistema. Mas com um fundamento fraco porque parte da convicção de que o problema é a elite política quando o problema é o sistema. Não há aqui engano possível: enquanto o sistema for o da política de austeridade da troika, as elites políticas suas intérpretes serão sempre medíocres. Porque a gelatina, o bunga-bunga ou a tecnocracia não são senão três rostos da mesma cultura política de pequenez, de subserviência e de feitoria colonial. Por isso mesmo, crer que a renovação da elite política é o foco prioritário da mudança necessária é crer numa ilusão. Mudar políticos é sem dúvida muito importante. Mas mudar de políticas é decisivo.

 

 O embuste do populismo é exactamente esse: criar a convicção de que estamos como estamos porque "os políticos" estão acomodados nas suas prebendas e que um arejamento do método de escolha e de legitimação e um consequente refrescamento da "classe política" trará horizontes completamente novos. Espero sinceramente que os italianos não caiam na triste tentação de aceitar esta possibilidade, mas forme Grillo governo em Itália e veremos quantos dias demora a ser classificado como "igual aos outros".

 A falsa alternativa entre os campeões da austeridade e os populismos descabelados é a herança mais perigosa que a ditadura do combate ao défice legará à Europa. E não nos enganemos: ser palhaço não é símbolo de populismo como ser engenheiro ou advogado não é símbolo de responsabilidade. Ricardo Araújo Pereira tem toda a razão: o que degrada a democracia não é a profissão dos eleitos nem a encenação que fazem para disseminarem as suas ideias; o que degrada a democracia são as ideias que defendem. E sobretudo a falta de ideias.


Independentemente da orientação político-partidária da crónica de José Manuel Pureza, sublinho e subscrevo o essencial do alerta que contempla: os perigos do populismo fácil e democraticamente inconsequente. E, acrescento eu, a perfídia de a uma deriva populista suceder uma qualquer deriva ditatorial sempre ávida pela conquista do poder.

Rui Beja

 

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publicado às 11:05



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