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Febre Germânica

09.02.13

Dormir com o inimigo

Viriato Soromenho Marques analisa a insuportável satisfação do Governo português face à política de Berlim, na Visão de 31 de Janeiro de 2013

 

Com algum atraso relativamente à data da publicação, cheguei hoje à leitura deste artigo de opinião. Porque compartilho o essencial da análise e das ideias expostas pelo Professor Soromenho Marques e porque considero que justificam a mais alargada divulgação, transcrevo na íntegra o perclaro escrito, acompanhado da imagem que o ilustra.

O regresso de Portugal ao mercado da dívida pública foi efusivamente saudado pelo Governo. A taxa de juro de 4,89%, a cinco anos, é a melhor nos últimos dois anos. Contudo, continua a ser superior em mais de um ponto percentual ao que o País paga no âmbito do resgate da troika. Estamos ainda longe de poder caminhar sozinhos. Pior ainda: querer apresentar a melhoria da atmosfera no mercado da dívida como o resultado da ação do Governo português roça a desonestidade intelectual. As únicas duas razões para isso residem no facto de a Alemanha ter sossegado os mercados através de duas medidas, concretizadas em setembro de 2012: «autorizou» Mario Draghi a avançar com o mecanismo OMT, que permite aos Estados que o solicitem, assinando um protocolo de estrita condicionalidade, obter apoio «ilimitado» do BCE no mercado da dívida pública; aceitou manter a Grécia dentro da Zona Euro, afastando os receios de uma reação em cadeia, inevitável caso a Grécia saísse desordenadamente do euro. Por isso até os gregos viram as suas taxas cair a pique.
 
Igualmente importante foi a entrevista concedida à jornalista Eva Gaspar por Steffan Kampeter, o n.º 2 do Ministério das Finanças alemão, que visitou Portugal para participar no I Fórum Portugal-Alemanha. Nela são reveladas as linhas de forças seguidas pelo Governo Merkel para a construção de uma Europa que só terá possibilidade de sobreviver sob a batuta da disciplina alemã. Num dado momento, explicou ele: «A crise nasceu porque os mercados silenciaram os seus mecanismos de alerta ao não diferenciarem nos juros cobrados [aos diferentes Estados da Zona Euro]».
 
A FRASE SINTETIZA O QUE TEM SIDO a política de Berlim nesta crise, e os objectivos para o futuro:
1) Ao atrasar a ajuda à Grécia, em 2010, e ao travar uma maior flexibilidade do BCE, em 2011 e 2012, a Alemanha quis dar uma lição não só aos Estados, mas também aos mercados (que não leram o art.º 125 do Tratado de Funcionamento da UE, que impedia os resgates...);
2) A criação dos fundos de resgate (FEEF e MEE), são apresentados como ato de generosidade de Berlim e aliados, quando na verdade visam proteger os interesses exclusivos das exportações alemãs, tendo os países resgatados de aceitar medidas duríssimas, sem discussão democrática, para obterem esse auxílio;
3) A Alemanha não aparenta nenhuma intenção de alterar as insuficiências estruturais da UEM, querendo manter uma moeda única para facilitar as trocas comerciais, mas não pretendendo avançar nem para uma união orçamental, nem para uma política económica comum;
4) A olímpica ausência de referências às instituições, mostra que a Alemanha está contente com uma Europa exclusivamente intergovernamental, em que ela manda e os outros obedecem.
 
O QUE É INSUPORTÁVEL É A SATISFAÇÃO do Governo português com esta situação ignóbil, tanto material como moralmente. Na desgraça nacional, não podemos só culpar a incompetência dos aventureiros que dominam os partidos que que têm acedido ao executivo. O fator da chantagem e do terror sobre os mercados, parte da estratégia de hegemonia de Merkel, retirando os prisioneiros debaixo de água um segundo antes do afogamento, tem lesado dezenas de milhões de vidas na periferia europeia.
A verdade não comove a gente de S. Bento. 240 mil portugueses (mais de 2% da população) saíram de Portugal em busca de trabalho, em dois anos. 200 mil empregos foram destruídos em 18 meses. O PIB caiu 3% em 2012, e vai cair mais 2,4% em 2013, com mais 80 mil postos de trabalho destruídos.
As empresas públicas rentáveis foram ou serão vendidas (a EDP, a ANA, a TAP, a CP Carga, os CTT...). Em 2014 a viabilidade do País estará ameaçada pelo aumento exponencial da pobreza, da desigualdade, e do niilismo. Mesmo como província de uma Europa alemã, Portugal não teria futuro.
Num século, a Europa já se curou duas vezes dessa febre da recorrente hegemonia germânica. Nada indica que não o faça outra vez. Com o inevitável mar de escombros.
Rui Beja

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publicado às 22:48



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José Cardoso Pires escreveu, em adenda de Outubro de 1979 ao seu «Dinossauro Excelentíssimo»: "Mas há desmemória e mentira a larvar por entre nós e forças interessadas em desdizer a terrível experiência do passado, transformando-a numa calúnia ou em algo já obscuro e improvável. É por isso e só por isso que retomei o Dinossauro Excelentíssimo e o registo como uma descrição incómoda de qualquer coisa que oxalá se nos vá tornando cada vez mais fabular e delirante." Desafortunadamente, a premunição e os receios de José Cardoso Pires confirmam-se a cada dia que passa. Tendo como génese os valores do socialismo democrático e da social democracia europeia, este Blog tem como objectivo, sem pretensão de ser exaustivo, alertar, com o desejável rigor ético, para teorias e práticas que visem conduzir ao indesejável retrocesso civilizacional da sociedade portuguesa.

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