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Memória Curta

12.11.12

Os «alemães que perderam a II Guerra Mundial» e os «alemães Merkel»

  Reflexões sobre realidades e mentalidades, no dia da visita da chanceler alemã a Portugal

 

Muito se tem dito e escrito sobre a atitude política de Angela Merkel e, concomitantemente, em relação à postura da Alemanha relativamente ao caos económico-financeiro que se instalou na Europa na sequência da crise do subprime iniciada em 2006 nos Estados Unidos da América. Bater na mesma tecla é, portanto, algo que nada acrescentaria aos múltiplos comentários veiculados pela comunicação social e nas redes sociais. Mas há outros aspectos, pouco tratados, sobre os quais vale a pena reflectir.

Sobre os alemães, as suas características inatas e a evolução de mentalidades ocorrida ao longo das últimas décadas, pouco se tem dito. Habitualmente é-lhes aposto um rótulo genérico, tipo gorro de tamanho único que serve em todas as cabeças. Aliás consideradas, e até autoconsideradas por muitos cidadãos germânicos com alargada mundivivência, como sendo «cabeças quadradas». E aqui temos um primeiro ponto que vale a pena abordar: o que significa «alemão de cabeça quadrada» e como tem variado essa «geometria cerebral».

Ao longo de 30 anos, entre 1971 e 2001, estive profissionalmente ligado ao maior grupo alemão, e europeu, de meios de comunicação. Relacionei-me muito proximamente, tanto no nosso país como no estrangeiro, com um alargado grupo de colegas (e também respectivos familiares e amigos) de nacionalidade alemã. Com alguns continuo a manter laços de amizade, em relação a outros perdeu-se o contacto e outros ainda nem gostaria de os ver por perto. Porquê esta diferenciação e que relação se pode estabelecer com o conceito «cabeça quadrada», com Angela Merkel e com a política alemã nos dias de hoje?

Entendo que o rótulo «alemão de cabeça quadrada» se aplica com a mesma legitimidade que o de «português desenrascado». Ambos correspondem a uma realidade genética e ambos foram sofrendo transmutações ao longo dos tempos. Sobre nós, portugueses, não vem agora para o caso discorrer sobre o «desenrascanço». É uma capacidade que em maior ou menor grau nos caracteriza, e que apresentando-se como vantajosa em certas situações se torna um quebra-cabeças em bastantes outras, sendo pacífico afirmar que segue ao sabor dos ventos e marés predominantes em cada momento da nossa vida colectiva e individual.

Para nós, o epíteto «cabeça quadrada» tem um indubitável sentido depreciativo. Corresponde à qualificação de quem não tem capacidade de adaptação a novas situações, que bloqueia quando as circunstâncias recomendam que se actue à margem dos cânones, enfim, que não se sabe «desenrascar» e segue em frente contra ventos e marés. Não contestando esta acepção genérica, considero que a designação «alemão de cabeça quadrada» abarca também várias características positivas: planeamento, organização, cumprimento de compromissos, disciplina de trabalho, observância das regras definidas. Para o bem e para o mal, corresponde igualmente a uma prática que poderá ser positiva ou negativa conforme as circunstâncias: o primado da obediência aos poderes instituídos em cada momento. E aqui começa a dicotomia de perspectivas entre «alemães que perderam a II Guerra Mundial» e «alemães Merkel».

Os alemães da dita «geração de 68», com quem comecei a ter contacto no início da década de 70 do século passado, tinham presente os horrores da II Guerra Mundial e assumiam o sentimento de culpa pelas consequências dramáticas a que a obediência inflexível ao «seu führer» tinha levado a Alemanha, a Europa e o Mundo. Diziam claramente, quando a então Comunidade Europeia começou a tomar forma: deixem estar as coisas assim, com a Alemanha enquadrada numa união de países, porque quando estamos isolados temos tendência para fazer «borrada» como aconteceu nas duas guerras mundiais. Chanceleres como Konrad Adenauer, Willy Brandt, Helmut Schmidt, ou Helmut Kohl, regiam-se em maior ou menor grau por estes princípios e contribuíram para a criação de uma Europa que se pretendia socialmente responsável e solidária. Os alemães da geração que começava a despontar no início dos anos 2.000 já não se apresentavam com essa memória: mostravam a arrogância de seres superiores e assumiam-se como «donos do mundo». Ou seja, fazendo a comparação: «cabeças quadradas - geometrias diversas»

Nos dias de hoje, os meus amigos alemães de há quarenta anos dizem-me que têm muito receio do que se está a viver na Europa. Por uma questão maior: perder-se a paz. São «os alemães que perderam a II Guerra Mundial».

Merkel faz parte das novas gerações que começam a ser maioritárias no seu país. São os alemães que não se sentem comprometidos com o passado, que se assumem superdotados, que pensam exclusivamente no seu bem-estar. Querem desconhecer que a solidariedade de que a Alemanha já tanto beneficiou tem dois sentidos, parecem incapazes de perceber que os últimos, mas também os maiores perdedores do que se está a fazer na Europa, serão eles próprios. E não têm preocupações com o risco de uma questão maior: perder-se a paz. São «os alemães Merkel».

Façamos para que prevaleça o bom senso, se restabeleça a solidariedade e se preserve a paz.

Rui Beja

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publicado às 11:49


5 comentários

De À Janela dos Livros a 13.11.2012 às 15:53

Passada a visita de Merkel e passando ao lado da apreciação sobre a atitude dos governantes do nosso país, por não se integrar no âmbito deste texto, justifica-se comentar que a postura da chanceler alemã em tudo confirma o que está dito em «Memória Curta». Tanto no domínio da arrogância mostrada por quem se permite tratar os seus anfitriões como se fossem seus subordinados, como na conveniente «memória de ancião» que vem lembrar as glórias dos descobrimentos, mas não se lembra minimamente das responsabilidades que tem sobre o que se está a passar, em Portugal e na Europa, nos dias de hoje.
Mas a «cereja em cima do bolo» estava guardada para a tradução da sua oratória . em português do Brasil. Para «falta de chá» não se poderia encontrar melhor. Tenha ela o descaramento de levar uma tradutora portuguesa quando visitar o Brasil e Dilma Roussesseff se encarregará de lhe dar a resposta que uma tal indignidade merece.

De J.Roque a 14.11.2012 às 00:00

Bem "dito"!
Aliás, vindo de onde vem, só poderia estar impecável.

De josé tavares a 14.11.2012 às 19:43

Parece-me bem ponderada esta análise que Rui Beja faz sobre os alemães destas últimas décadas, uma leitura alicerçada sobre a experiência que viveu.
É verdade que "não nos podemos lavar duas vezes na mesma água...", que os tempos e as gentes mudam mas, é um facto que esta deriva protagonizada por Angela Merkel , esta busca cega de equilíbrios financeiros, cilindrando preocupações de ordem social, faz perigar a paz.
Assim, como refere Rui Beja, é imperioso que o bom senso se imponha entre os "alemães Merkel ".
E - acrescento - não só entre alemães!
José Tavares

De Gil Montalverne a 18.11.2012 às 18:07

Eu não seria tão pacifista. Sem haver necessidade de começarmos uma guerra fraticida com a Alemanha representada pela Dona Merkl, acho que é necessário que aqueles que com ela dialogam lhes lembrem os episódios passados e aqui recordados, pois parece que, ou não os estudaram ou os esqueceram por completo. Não sei se a isto se pode chamar bom senso. No meu tempo de estudante, dizia-se “chamar os meninos à pedra”.
E é preciso fazer alguma coisa. E quanto antes melhor.

De Luís Vaz da Silva a 21.11.2012 às 17:20

Totalmente de acordo com o seu pensamento e apelo final.
De facto ignorar-se ou querer esquecer-se o passado e sentir-se o dono da verdade foi e é perigoso, senão fatal, para um relacionamento saudável entre gerações e culturas

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