Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



"Canções de Embalar"

 Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia (Eça de Queirós, Relíquia - 1887)

  

  

papão vai-te embora de cima deste telhado, deixa o menino dormir um soninho descansado"!

Nos anos quarenta do século passado, era assim que os meus pais procuravam que fechasse os olhos para adormecer o mais rapidamente possível; faziam-no com carinho, seguindo a tradição da época, e não pondo sequer em causa que incutiam o medo de um papão.

 

Com o correr do tempo e o avançar nos anos, a forma de adormecer os ímpetos da juventude começou a chegar por via de conselhos marcados pelo regime imposto por Salazar e Caetano que, de forma mais brutal ou mais sub-reptícia, incutia novos medos face a um poderoso papão: "tem cuidado com companhias que podem ser perigosas", "ficamos preocupados por ires à manifestação dos estudantes", "olha que se fazes greve podem incorporar-te no serviço militar sem te deixarem acabar o curso"...!

 

De olhos e ouvidos postos em todos estes medos vividos pelo comum dos portugueses, e com actuações criminosas para com quem corajosamente afrontasse os ditames do regime, os "senhores" do Estado Novo brandiam o demoníaco papão: "viver em democracia seria o caos porque o povo português não está preparado; tem muito que aprender, tem de ser um bom aluno.".

 

Perto de sete décadas passadas sobre a primeira canção que serviu para me embalar e quando não falta muito para se completarem quarenta anos de vivência em democracia, estava longe de imaginar que me seria dado assistir à ressurreição das “canções de embalar”, agora suportadas num patético papão: "actuar com firmeza e inteligência perante os acéfalos "senhores da troika” e os interesses do capital financeiro, para salvaguardar os nossos legítimos direitos e a nossa dignidade humana e institucional, seria o caos porque o povo português não se sabe comportar; tem muito que sofrer, tem de ser um bom aluno.".

 

Não passará certamente pela cabeça dos senhores que nos (des)governam, o ditado popular que se aplica exemplarmente à atitude cobarde que têm prosseguido: “quanto mais te agachas, mais te põem o pé em cima”; ou, porventura, são mais adeptos do “quanto mais me bates, mais gosto de ti”.

Obviamente, nem sequer pensam que foi seguindo a política frouxa de conciliação/pacificação com os poderosos, pondo-se "de cócoras" face ao ditador nazi, que o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain aceitou, em 1938, as garantias ardilosamente oferecidas por Hitler para manter o equilíbrio europeu e, depois de sacrificar a Checoslováquia à Alemanha, viu os germânicos "compensarem" a política de apaziguamento do "parceiro bem comportado" invadindo a Polónia em 1939. Valeu, então, para que a II Guerra Mundial não tivesse tido efeitos ainda mais catastróficos, a inteligência, a sagacidade e a firmeza, do primeiro-ministro que lhe sucedeu - Winston Churchill!

 

É certo que vivemos outros tempos e que o exemplo referido serve apenas para ilustrar a diferença entre governantes - credulamente ineptos ou inteligentemente argutos - na defesa de interesses vitais para o seu, neste caso o nosso, país. Obviamente que a ilustração não comporta juízos de valor que aproximem o regime da Alemanha nazi do regime democrático que hoje se vive naquele país. Serve apenas para lembrar que ser bom aluno, a qualquer preço, não serve os interesses de Portugal e paga-se caro. Muito caro!

 

Precisamos de um "Churchill", não de um "Chamberlain".

Ó papão vai-te embora, são os meus votos para 2013.

Rui Beja

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:22


2 comentários

De Carlos Quintanilha Mantas a 29.12.2012 às 09:57

É sempre com prazer que leio a sua prosa!
E neste fim de ano, passagem para um que se anuncia, ou que nos anunciam, de "tenebroso", razão maior para saudar a iniciativa.
Enchem-nos os ouvidos de que a causa desta situação foi "termos vivido acima das nossas possibilidades". Cada um de nos assumiu as que quiz e comprometeu-se a liquidá-las. Só que "aqueles senhores que há anos nos desgovernam" assumiram o que lhes convinha em nosso nome e sem consulta prévia! E agora que chegou a factura endereçam-na para aqueles -nos- em nome da democracia!!
Se a canção de embalar que ao tempo nos cantavam tinha um efeito positivo -adormeciamos e os nossos pais podiam ter alguma tranquilidade subsequente - hoje essa canção e esse papão tem o efeito contrário; acordam-nos para uma realidade de que não fomos participantes mas cujo ónus nos é imputado.
Por isso o único desejo é o de que esses papões fossem corridos e julgados pelos actos que cometeram em nosso nome!
Abraço.
Carlos C B QuintanilhaMantas.

De Manuel Oliveira a 30.12.2012 às 18:48

E o senhor de Belém continua adormecido pelo monstro que deu à luz quando se fazia passar por primeiro-ministro e se entretinha com os seus fiéis amigos do PBNgate, Belémgate, Coelhagate...

Não podemos ter memória curta.

Manuel Oliveira

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


calendário

Dezembro 2012

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031

Declaração de Princípios

José Cardoso Pires escreveu, em adenda de Outubro de 1979 ao seu «Dinossauro Excelentíssimo»: "Mas há desmemória e mentira a larvar por entre nós e forças interessadas em desdizer a terrível experiência do passado, transformando-a numa calúnia ou em algo já obscuro e improvável. É por isso e só por isso que retomei o Dinossauro Excelentíssimo e o registo como uma descrição incómoda de qualquer coisa que oxalá se nos vá tornando cada vez mais fabular e delirante." Desafortunadamente, a premunição e os receios de José Cardoso Pires confirmam-se a cada dia que passa. Tendo como génese os valores do socialismo democrático e da social democracia europeia, este Blog tem como objectivo, sem pretensão de ser exaustivo, alertar, com o desejável rigor ético, para teorias e práticas que visem conduzir ao indesejável retrocesso civilizacional da sociedade portuguesa.

Os Meus Livros

2012-05-09 A Edição em Portugal (1970-2010) A Edição em Portugal (1970-2010): Percursos e Perspectivas (APEL - Lisboa, 2012). À Janela dos Livros capa À Janela do Livros: Memória de 30 Anos de Círculo de Leitores (Círculo de Leitores/Temas e Debates - Lisboa, 2011) Risk Management capa do livro Risk Management: Gestão, Relato e Auditoria dos Riscos do Negócio (Áreas Editora - Lisboa, 2004)

Não ao Acordo Ortográfico

APRe! - logotipo