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O fantasma de regresso à segregação social do Estado Novo

O modelo alemão de ensino profissional e os «velhos» bloqueios na progressão académica em Portugal

 

No «curriculum vitae» constante em http://pascal.iseg.utl.pt/~ncrato/CVpor.pdf, relativo ao actual ministro da Edução e Ciência, Nuno Paulo de Sousa Arrobas Crato, consta, como primeiro nível de habilitações académicas, a licenciatura em Economia em 1980/81 no Instituto Superior de Economia, ramo de Planeamento – Métodos Matemáticos. Certamente que o caminho para obtenção deste grau académico resultou de uma progressão continuada, fruto da evolução sequencial nos vários graus de ensino: básico (antigo primário) – secundário – superior. O mesmo se terá passado com os seus colegas de licenciatura.

Mas nem sempre foi assim. Nos tempos «da outra senhora» a progressão era igualmente continuada e sequencial para quem acedesse ao ensino superior por via do ensino liceal, e eivada de barreiras, sob a forma de exames adicionais e anos complementares, para quem pretendesse aceder por via dos então designados cursos técnicos: comercial, industrial ou agrário.

Dispenso-me de entrar em pormenores sobre os porquês que então levavam a optar por uma ou pela outra via. Existe documentação suficientemente esclarecedora sobre esta matéria, a qual, em resumo, conduz a uma clara evidência: pondo de parte algumas excepções, a via liceal era seguida pelos estudantes pertencentes à elite socioeconómica da época e a via técnica por aqueles que descendiam de classes menos favorecidas.

Desafortunadamente, a correcção desta degradante segregação social, levada a cabo após a implantação da democracia em Portugal, deu-se pela forma menos apropriada levando ao «desaparecimento» do ensino técnico, com consequências graves para o ajustamento entre a procura e a oferta do mercado de trabalho. Ou seja, insuficiência de técnicos com adequada qualificação ao nível secundário, falta de qualificação própria de quem não concluía o ensino superior e excesso de licenciados em vários domínios do conhecimento.

No entanto, o memorando de entendimento que o ministro da Educação e Ciência foi assinar a Berlim, na passada semana, para importação do «sistema dual» alemão de ensino profissional (uma conjugação de aulas numa escola vocacional com um regime intensivo de estágio em fábricas, oficinas, laboratórios, ou escritórios ao longo de dois ou três anos, para alunos com mais de 15 anos), faz acordar os demónios adormecidos da segregação social prevalecente na estrutura de ensino do Estado Novo.

O «sistema dual» existe há décadas na Alemanha, tem muito a ver com as especificidades sociológicas e organizacionais dos germânicos e, apesar disso, é objecto de fortes críticas no próprio país face há desigualdade de hipóteses que à partida se colocam aos que pretenderem seguir para a Universidade. Neste contexto, o seguinte extracto das questões colocadas e respondidas pelo ministro português, conforme consta no jornal Expresso de 10 de Novembro de 2012, torna-se «arrepiante» para quem seguiu o «calvário» do ensino técnico nos tempos de Salazar:

...

“P: Encaminhar, a partir dos 13 anos, alunos com baixo rendimento para uma via mais profissional de ensino não envolve um risco de segregação social?

R: Não. A via vocacional é uma oferta prática exigente que assegura a inclusão de todos no percurso escolar. O facto de os estudantes terem português, matemática e inglês com a mesma carga horária que os do ensino regular permite que o jovem possa optar por fazer exames e reingressar na via regular ou, se preferir, escolher um percurso profissional. Além disso, esta é uma via tão digna quanto a do ensino regular, e não é obrigatória nem exclusiva para alunos com insucesso escolar. É uma opção que poderá ser feita pelo aluno, e que necessita do acordo do encarregado de educação e do parecer das equipas dos serviços de psicologia e orientação escolar.

Há muitos tempo que não me era dado ouvir uma tão confrangedora «pedagogia demagógica». Apesar disso, tem uma coerência irrefutável: confere com a política de empobrecimento em curso no nosso país.

Parar é morrer. Mudar faz parte da vida. Mas quando mudamos é conveniente que seja para melhor. Não é certamente o caso.

Rui Beja

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publicado às 00:45


1 comentário

De Sara Fonseca Ferreira a 17.11.2012 às 16:05

Depois de ler este teu último turbo d'escape o que me veio logo à cabeça foi: porquê o modelo alemão? Que modelo de sistema educativo tem na pasta esta gente que agora nos governa?
Se passarmos a um sistema orientado mais para funções económicas, relacionadas directamente com as necessidade dos sectores produtivos, aparentemente isso até pode ser a médio prazo uma solução. Mas a longo prazo? Quais são as implicações de uma tal escolha? E nós. a sociedade de outros pensantes que por aqui andam, não temos que ser ouvidos? Bahhh !..para esta gente.

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