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Infâmia, vexame e inconsciência ultraneoliberal

 Desabafos de indignação face à inconcebível, inaceitável e premeditada destruição socioeconómica de Portugal e dos portugueses, perpetrada pelo "(des)governo do nosso país" em conluio com os "falcões da União Europeia" e os "esbirros da troika"

   

Taxa de desemprego (in Público de 13Fev2013)          Evolução do PIB (in Público de 14Fev2013)
 

Desemprego: falta de emprego; perda de lugar que desempenhava.

Brutal: desumano, incivil.

Infâmia: acto ou dito que revela sentimentos vis; descrédito; calúnia, aleive.

Vexame: vergonha; escândalo, desonra, afronta; opressão.

Inconsciência: falta de responsabilidade moral; acto que a consciência deve reprovar; desumanidade.

Ultraneoliberal: que defende a desregulamentação e rejeita a intervenção, ainda que limitada, do Estado.

 

Tanto que há para desabafar sobre a loucura como, com total desprezo pelo presente e pelo futuro dos portugueses, está a ser feita a consolidação orçamental no nosso país! Tanta indignação que é suscitada pela mentira, hipocrisia e soberba com que se nos dirigem aqueles que (des)governam Portugal e aqueles outros que - de portas escancaradas por Passos, Gaspar & C.ª - ditam o que tem de ser feito para servir os seus interesses e as suas tenebrosas teorias! E, no entanto, tão difícil que é encontrar palavras que não tenham já sido ditas pelas mais autorizadas e credíveis vozes que, independentemente de filiações ou simpatias político-partidárias, têm, de forma consubstanciada, alertado para a criminosa política económica e a trágica destruição social que estão a ser deliberadamente levadas a cabo pelos ultraneoliberais que tomaram contam do nosso país.

 

Porque quem cala consente, porque não gosto que me façam de tolo, e porque a palavra escrita continua a ser o instrumento de denúncia mais temido por quantos actuam com pérfida má-fé, deixo aqui registado que não me resigno a um fado que não pode ser o nosso, e que não me entrego à comodidade de pensar que não vivo [ainda?] a situação dramática que desabou sobre tantas e tantas famílias. Enfim, que assumo ter idade e experiência de vida que me permitem fazer coro com aqueles que, com critério e conhecimento de causa, afirmam sem tibiezas que o actual poder executivo perdeu legitimidade política para se manter em funções e, a cada dia que passa, mais contribui para o descalabro perigosamente irreversível da sociedade portuguesa.

E não, não me venham dizer que ou é assim ou é o caos porque pode não haver alternativas democráticas maioritárias, porque a senhora Merkel vai amuar, porque os "mercados" nos vão estrangular, porque... blá, blá, blá!!! Não, porque as coisas não são assim, o mundo não é a preto e branco, e, não nos esqueçamos, porque o gang [a palavra inglesa que significa "grupo"] ao qual estamos entregues, ainda não acabou o seu objectivo de destruição; basta pensarmos no famoso corte de 4 mil milhões de euros, a que outros se seguirão, lembrarmo-nos que têm em mente tornar definitivo o corte nas pensões e nos salários da função pública, tomarmos consciência do que significa a meta de 14% de desemprego estrutural definida por esta troupe [a palavra francesa que significa "grupo de artistas que actuam em conjunto"] e, cereja em cima do bolo, recordarmos o desmembramento do Estado Social a que se lançaram como "gato a bofe".

 

Não me venham falar no "desvio colossal", na "pesada herança" que os (des)governantes de agora juraram nunca serviria de desculpa porque sabiam muito bem qual a situação em que o país se encontrava quando decidiram chumbar o chamado "PEC 4" e afirmaram estar mais do que cientes do que era necessário fazer para, cortando simplesmente nas "gorduras do Estado", pôr o país no rumo certo.

Porque não tenho memória curta, não esqueço que, além de terem forçado o recurso à ajuda externa, foram signatários do memorando acordado com a "troika", disseram que o respectivo conteúdo correspondia ao seu programa de governação e, pasme-se, chegaram ao ponto de apregoar, alto e bom som, que iriam mais longe do que o estabelecido no memorando porque assim conseguiriam melhores resultados.

Não me esqueço igualmente, acho que ninguém se esquece mesmo que se queira fazer de esquecido, dos chavões e mentiras usados pelo então candidato a primeiro-ministro, aquando da campanha para as eleições legislativas de 2011, para mais facilmente tomar de assalto o poder e perverter o seu exercício; para que não restem dúvidas, aqui fica o link para um bem elaborado e bastante completo "auxiliar de memória", que alguém denominou «Eis um homem para ser levado a sério»: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=SWKerbNIQcU# .

  

Também não aceito a teoria do "crime e castigo": os portugueses portaram-se mal, não souberam aproveitar as oportunidades que lhe foram propiciadas, gastaram acima das suas possibilidades, endividaram-se sem fazer contas à capacidade de solvência dos compromissos que assumiram, e agora não podem querer que sejam os alemães a sacrificar-se para os ajudar ou os "mercados" a assumirem os prejuízos, porque "quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga".

Não aceito porque se trata apenas de meia verdade. Os portugueses partiram, em Abril de 1974, de uma situação calamitosa em termos de educação, de cultura, de saúde, de infraestruturas básicas e de tudo o mais que qualifica um país democrático e desenvolvido. Desde então, Portugal acolheu um milhão de retornados das ex-colónias, criou um Serviço Nacional de Saúde exemplar, progrediu substancialmente no Sistema de Educação e no nível cultural, desenvolveu o esquema de Segurança Social, construiu uma importante rede de infraestruturas e... cometeu erros, como só não comete quem nada faz.

Não aceito porque, como é mais do que sabido, muitos se aproveitaram das nossas insuficiências básicas e do legítimo sonho de progresso rápido, ao nível da escala europeia, para fazerem os seus negócios chorudos e obscuros, sem, também eles, sopesarem como era seu dever os riscos que estavam a correr. E neste "eles", surgem em primeiro lugar, não por simples casualidade, a Alemanha e os ditos "mercados".

A Alemanha, por mais que queira, não pode esquecer as duas guerras mundiais que provocou no século XX, tem obrigação de se lembrar que deve àqueles a quem agrediu os enormes apoios que recebeu para se reerguer das cinzas, e não pode apagar do mapa da história que levou quarenta anos para pagar as ajudas financeiras que recebeu; como não se pode também fazer de esquecida  relativamente aos benefícios que colheu da criação da moeda única, em prejuízo de países de economia mais frágil como é o caso de Portugal.

Os "mercados", não passam, por mais que os procurem branquear, de uma forma sofisticada para denominar o capitalismo financeiro - selvagem e ultraneoliberal - que, sem escrúpulos e pervertendo as mais elementares regras da economia de mercado, destrói riqueza e enriquece magnatas financeiros utilizando os mais nebulosos e corruptos esquemas de fraude e abuso de poder; atente-se na drástica mudança de comportamento que tiveram em relação aos juros da dívida portuguesa, não porque a relação entre o nosso endividamento e a nossa capacidade de gerar meios para o solver tenha melhorado (bem pelo contrário), mas simplesmente porque a senhora Merkel foi forçada a "fechar os olhos" às medidas de protecção do euro tomadas pelo Banco Central Europeu.

  

Finalmente, o mais importante. Que se pode esperar do desemprego brutal que temos e daquele (os tais 14% estruturais) que nos "recomendam"? Como é possível aguentar um primeiro-ministro que fala destes números como se falasse na classificação de um clube de futebol e, com a maior ligeireza, avisa que ainda irá piorar ao longo deste ano? Como se pode esquecer o drama financeiro e psicológico de novos e velhos que, além de não encontrarem emprego, vêem ser-lhes vedado o acesso ao respectivo subsídio? Como podem sobreviver as famílias que têm todos os seus membros em situação de desemprego? Que perspectivas podem ter os nossos jovens que não encontram hipóteses na emigração? Que futuro está reservado para as gerações maduras que assistem à partida dos jovens mais qualificados e à degradação demográfica do seu país? Que consequências devastadoras se podem esperar da aniquilação a que estão a ser sujeitas as classes médias, aquelas que mais podem contribuir para a democracia e progresso do país? Que esperança e que condições são propiciadas às classes mais desfavorecidas para que aspirem e trabalhem no sentido de progredirem no patamar socioeconómico?

 

Não, não aceito que tudo depende da vontade de Passos, Gaspar & C.ª e que, dentro do nosso (des)governo, dentro dos partidos da maioria, todos tenham de estar tolhidos pela chantagem do "ou é assim ou é o caos". Não, não aceito que haja ministros que mandem recados para a comunicação social sugerindo que não concordam mas... não há alternativa.

Há alternativa. Batam-se por ela. Imponham que o prazo para pagar a dívida seja alargado, para que os juros sejam revistos em baixa, para que a coesão na Europa não seja uma ficção. Lutem para que a situação socioeconómica não se degrade ainda mais por via das muitas medidas de contracção que se anunciam e das nenhumas acções para o crescimento que se conhecem.

E se não tiverem resultado, o que custa acreditar porque ninguém - na União Europeia, no BCE e no FMI - está interessado num falhanço abrupto e estrondoso de Portugal, peçam a demissão, abandonem o (des)governo e apresentem-se de consciência tranquila e cabeça levantada. Porque Portugal não vai entrar em desgraça se o (des)governo cair. Portugal e os portugueses têm a temer, sim, se nada for mudado... e quanto mais depressa melhor!

 

Dito isto, e quanto mais não haveria para dizer, surge a questão inevitável, relativamente à qual quem de direito não responde nem tira as devidas consequências:

O REGULAR FUNCIONAMENTO DAS INSTITUIÇÕES ESTÁ ASSEGURADO?

Rui Beja

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publicado às 12:30


5 comentários

De sara fonseca ferreira a 18.02.2013 às 01:37

Toda a razão, Rui. Quem cala consente e assim vamos andando. "Que se lixe a troika", dia 2 vamos para a rua!

De À Janela dos Livros a 18.02.2013 às 10:12

Pelo manifesto interesse que reveste no presente contexto, transcrevo o comentário que um amigo me enviou por e-mail:

"Continuo na Bélgica como sabes, mas em contacto com outra austeridade!
Aqui ainda ninguém resolveu pôr fim ao subsidio de desemprego ao fim de x meses, embora muitos, por isso mesmo, nem emprego procurem.
Não mais tarde do que ontem foi deliberado conceder aos que têm condições precárias 500 Kw de electricidade gratuita por ano.
Existem outras medidas tomadas em 1988! como verás a seguir:
Subsidiar os desempregados sem formação possibilitando por exemplo ao meu filho de pagar €7,00 para que lhe engomem 6 camisas ao mesmo tempo que o Estado, paga a essas trabalhadoras (são maioritariamente mulheres - cerca de 150.000) €14,00 por esse mesmo trabalho previsto para ser executado durante 1 hora.
Encoraja-se aqui, isentando as empresas de contribuições para a segurança social (50% do vencimento base) a admitir estagiários. A experiência mostra que 40% dos mesmos acabam por ser contratados.
O Mittal prepara-se para fechar uma aciaria e o governo prepara-se para lhe exigir os benefícios fiscais de que gozou até agora.
A renovação de edifícios desde que tenham mais de 15 anos beneficia de uma taxa de IVA de 6% para os materiais e mão-de-obra em vez dos 21%, o que faz com que a construção civil e tudo o que lhe esta associado não esteja em crise.
Enfim, outras realidades e fundamentalmente outras maneiras de pensar e agir."

De josé tavares a 18.02.2013 às 12:13

Compreendo bem este “desabafo de indignação” de Rui Beja.
Este seu persistente grito de dôr e revolta, que não de desânimo.
(Atitude que, francamente, não sendo eu invejoso, me faz inveja … não estarei acomodado a estas políticas mas, estarei sim, algo vencido nesta luta contra moinhos de vento ou outras forças não tão ocultas quanto dizem)
As posições sustentadas por Rui Beja a propósito deste “desemprego brutal” de cada dia parecem-me evidentes e irrefutáveis. O mesmo acontece com as vias de recuperação que sublinha e que podem agitar a economia e estancar o desemprego – o prazo alargado no pagamento da dívida, os juros revistos, a coesão europeia.

Destaco a coesão europeia, como a entendo.
A meu ver, mais do que nos décimos de competitividade e nas virtudes do empreendedorismo (que descoberta esta, meu Deus!), mais do que nas comparações infantis (sou melhor do que aquele menino e estou quase a apanhar aquele outro), mais do que na gestão avançada (compras com produtores esmigalhados e 70% de desconto no cartão)… há que buscar sobretudo na coesão europeia a saída para as crises

É que os ganhos martelados até à décima e à centésima não se compadecem com os ganhos do euro face ao dólar, a libra ou o yene, com a paralisia da Organização Mundial de Comércio, com a deslocalização de indústrias e de agriculturas.

Difícil, esta mexida na União? Sem dúvida.
A alternativa é o entretem com os números e o brincar com as pessoas.

José Tavares

De Manuel Oliveira a 20.02.2013 às 10:54

Concordo com o que é dito, mas sabe a pouco. As palavras são importantes, mas a indignação tem de ser visível na rua, nos meios de comunicação.
De forma ordeira e dentro da legalidade, se o povo é quem mais ordena, como diz "Grândola" e como começa a ser cantado em locais públicos, então tem de mostrá-lo. A manifestação do dia 2 de Março é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Se não for um sucesso indesmentível será aproveitado para que carreguem ainda mais em cima de nós porque, ao deixarmos para os outros o trabalho de se indignarem por nós, estamos a dar o sinal de que, afinal, ainda aguentamos mais porrada, e da grossa!
Lembrem-se que as Merkel e os troika não estão nada interessados em ter aqui mais uma Grécia. Nós também não.
TEMOS DE LHES MANIFESTAR A NOSSA INDIGNAÇÃO E A NOSSA RECUSA EM SERVIR DE COBAIAS!

De TACO a 21.02.2013 às 10:38

Os factos que aconteceram posteriormente a este texto ter sido publicado, nomeadamente a mudança de discurso do Governo no que diz respeito ao pedido de mais tempo para fazer o ajustamento e pagar a dívida, demonstram a oportunidade e justeza do que aqui está escrito.

Mas cuidado com qualquer entusiasmo precipitado! O Governo já nos habituou a dar um passo em frente para depois recuar dois. O que estará a ser preparado com o anunciado corte de mais 8.000.000 de euros ainda este ano?

É preciso que o dia 2 de Março constitua uma "jornada esmagadora contra a tentativa de nos esmagarem".

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